Hoje em dia a mídia impressa tá dose, principalmente a seção de editoriais. Porém tem outras seções, então da Folha por exemplo tem muitos dias que só dou uma olhada no caderno Ilustrada, de cultura e entretenimento. Lógico que não é que gosto de tudo ali. Se sair alguma polêmica quanto à arte contemporânea, é bom não ficar só na Folha e consultar também blogs ou o Canal Contemporâneo, ou ainda, detesto os filmes comentados pelo Inácio de Araújo. Mas dá para se entreter de forma bem razoável, vendo o lado cultural para esquecer um pouco asssuntos chatos como política, economia, etc.
Não precisa ser só Cultura & entretenimento, tem outras seções, como esportes, saúde, o Estadão tinha o suplemento agrícola, etc, etc. São seções para, digamos assim, mudar de assunto. Tipo, se a discussão de política tá chata, vamos mudar de assunto.
Aí você pergunta se isso se aplica à revista Veja: se pulo a parte política e vou para dicas de saúde, diversão, etc. A minha resposta é NÃO! Só pego a Veja em momentos de tédio extremado em consultórios, etc e mesmo assim, tomando cuidado com as informações da parte de entretenimento.
Exagero? Não, é para não cair em furada mesmo! Muita coisa lá ou é propaganda, "mensagem subliminar" ou faz você ficar por fora!
PROPAGANDA:
Um bom exemplo era o Chevrolet Corsa na capa da edição de 27/04/1994 (pode ser visto em http://veja.abril.com.br/busca/imagens/capa/1994/JPG380x490/1337.jpg). A pretexto de apresentar um novo fenômeno de sucesso, etc, se faz simplesmente propaganda. E é bom ficarmos espertos pois deve ter muita coisa com causa e efeito invertidos: se faz propaganda para que seja um sucesso. Por exemplo, Mario Sabino (um dos cheges da Veja) escreve um livro, dá um jeito para que o livro esteja na lista dos "mais vendidos" para que aí venda mesmo, é dar a informação para que a informação se torne realidade quando deveria ser o contrário. Esse caso foi contado em detalhes por Nassif (http://luis.nassif.googlepages.com/osmaisvendidos)
Então sempre tenho minha desconfiança quando se anuncia uma nova balada, academia, biscoito, etc na Veja. Sobre saúde e remédios o cuidado deve ser redobrado (se bem que muitas vezes é para falar de como maltratar seu corpo para que fique "bonito"). Lembre-se que para Veja falar mal de transgênicos é meramente posição ideológica anti-modernização e comer muito alimento orgânico é coisa de novos militantes maluco-belezas.
"MENSAGEM SUBLIMINAR"
Ok, não sei se o termo tá certo pois não são propriamente mensagens que só o inconsciente vê, mas com certeza são certas repetições e exercícios para você ir aderindo a certas posições sem perceber.
Por exemplo você vai ler uma matéria sobre entretenimento, sobre YouTube, por exemplo (edição de 13/09/2006, capa http://veja.abril.com.br/130906/imagens/capa380.jpg). A matéria começa comentando que lá tem vídeos sobre tudo, até com Fidel Castro e Hugo Chávez embora (comentam eles) não se saiba quem se interessaria em assistir esses "ditadores". É aquela coisa de repetir que Chavez é ditador e isso vai entrando na cabeça dos leitores, que uma hora nem vão mais perguntar porque considerar Chavez ditador se lá tem eleições, plebiscitos (inclusive plebiscitos em que Chavez perdeu), etc.
(Fidel Castro? Bom, de acordo com minha visão sobre política, é possível sim assumir que lá em Cuba tem algumas questões políticas que acabam levando à repetição de um mesmo projeto na figura do Fidel, de forma que Fidel como repetição dessa personficação política pode ser denominado ditador. Contudo, na minha visão, também pode ocorrer da personificação se alternar, de forma a não haver um só ditador, como também e mesmo de ser um plural de projetos similares que vão se alternando no poder e manter as coisas como estão por sua similaridade. Em suma, não considero muito a democracia em que estamos muito democrática, tampouco a dos EUA em que 2 grandes partidos se alternam. Chavez para mim é democrático, ainda que alguns instrumentos democráticos que ele usa alguns chamem de democratismo, abuso da democracia ou até mesmo anti-democráticos. Tá certo que não sou um grande entendedor, mas de qualquer forma, acho simplesmente ridículo falar como se Chavez fosse mais ditatorial que a "ditabranda" que teve aqui.)
Opa, voltando: se esse detalhe da reportagem do youtube parece exagero meu, outro não deve ser: a matéria lista alguns dos vídeos populares do site, e lá tinha um do ACM falando mal do MST e encorajando as forças armadas a darem um novo golpe! Meu deus, você vai ver uma reportagem de entretenimento e aparece uma defesa do projeto que a Veja defende! Não, não era apenas um exemplo de vídeo do youtube não! Pois um outro exemplo que eles deram, do Fidel tropeçando ou Lula falando de viados, até dão para argumentar que são vídeos bem assistidos pois são engraçados e tal. Mas enquanto todos os exemplos que a Veja deu como amostras do universo do Youtube ou eram raridades ou tinham um bom número de acessos (2 critérios razoáveis para aparecerem numa reportagem sobre TV na internet), o do ACM estimulando um novo 1964 tinha apenas algumas centenas de acessos na época. E até hoje não tem muitos acessos não, mesmo tendo aparecido em reportagem. Confira http://www.youtube.com/watch?v=6dbDcRysOMQ. Hoje (27/5/9) um vídeo de quase 3 anos e que apareceu numa reportagem de uma revista com 1 milhão de exemplares, ter 2495 exibições, definitivamente é um vídeo irrelevante no universo Youtube.
Aliás façam melhor: no Youtube coloquem "Revista Veja 13/09/06" no campo de pesquisa. Aparecerão os vídeos daquela reportagem, e vocês verão que apesar de Zidane e Bob Dylan, mais da metade são vídeos falando mal de Lula ou de Fidel. Em suma, você queria entretenimento e vê uma matéria política disfarçada, por isso que chamei de "mensagem subliminar".
Um outro exemplo já foi magistralmente replicado pelo UniversoHQ (http://www.universohq.com/quadrinhos/2006/n10072006_08.cfm): numa matéria sobre super-heróis, a Veja reclama "Santa militância, Batman!" e diz que militância é uma coisa chata e coisa de quem não tem namorada ou coisa mais produtiva para fazer.
É o jogo de falar mal de um comparando com outro, como se outro fosse ruim. O maior erro será replicar dizendo "eu não sou militante, eu sou contra militância".
Já ouviram a piada racista do "não gosto de nazista pois eles prometeram acabar com judeus mas não conseguiram, fizeram serviço de preto"? É uma frase tão absurda que você perde os referenciais do que é defensável. É o maior erro dizer: "eu defendo os judeus, ainda bem que os nazistas fizeram serviço de preto", ou "eu defendo os negros, não atribua a incompetência dos nazistas em acabar com judeus como algo da cor".
VOCÊ FICA POR FORA!
E por fim você pode acabar ficando por fora mesmo tendo a sensação de que absorveu informações.
Lá do caso das propagandas: você fica por fora quando é enganado, pensando que tal lugar evento/moda/comida/etc é badalado e não é.
E das "mensagens subliminares", você também pode ficar por fora pois uma parte da matéria que era para ser de um tema acaba misturando com política.
Sobre o Youtube e outras novidades da net, a revista Época também fez matéria de capa, e tava bem melhor que da Veja, citando por exemplo os novos talentos que nasceram do Youtube e redes sociais. Parece que enquanto para Época a net é possibilidade de surgimento do novo, para a Veja é mais um meio de facilitar ver coisas velhas.
O contraste fica mais marcante quando o assunto é a Wikipedia. Enquanto a Veja diz que não é confiável por ter sido uma das referências bibliográficas de um documentário sobre participação americana no 11 de setembro, a Época diz que sua credibilidade da Wikipedia é cada vez maior por conta de participação das pessoas. Essa última parece ser a opinião mais endossada por aí. Ou seja, ver a Veja é um risco de ficar por fora.
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